segunda-feira, 30 de junho de 2014

A relação entre as chuvas na América do Sul e o desmatamento da Amazônia


Fonte: Projeto Rios Voadores, Revista Águas do Brasil <http://aguasdobrasil.org/edicao-04/projeto-rios-voadores.html>

A Amazônia é umas das regiões mais úmidas do mundo e qualquer alteração em sua ecologia pode afetar o regime de chuvas de todo sudeste da América Latina, sendo assim, imprescindível para a sobrevivência da população e biodiversidade da região. A movimentação das massas de vapor atmosférico na América do Sul é análoga ao curso de um rio que nasce na Amazônia e percorre o continente sul americano, por isto foi referida pelo cientista Antonio C. Nobre na palestra TEDxAMAZÔNIA como “rio voador” (Figura 1). A despeito de sua importância, esse rio atmosférico se encontra seriamente ameaçado, principalmente pelo processo de desmatamento da floresta, e uma alteração em seu fluxo pode gerar graves conseqüências para pessoas a milhares de quilômetros da floresta Amazônica (REDAÇÃO ECOD, 2011).

Formaçao e fluxo da chuva na America Latina
Figura 1. Processo de formação e fluxo do "rio voador" que regula o regime de chuvas na América Latina. Ilutraçao de Mariana M. M. Sarmento.
Uma grande massa de vapor parece invisível, porém percorre o continente americano diariamente e despeja uma quantidade de água doce maior que a vazão do próprio rio Amazonas. Influencia as chuvas no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai (REDAÇÃO ECOD, 2011). Este rio voador é responsável por 70% das chuvas de verão apenas no estado de São Paulo (FEARNSIDE, 2005) e permitiu o desenvolvimento da diversidade de biomas existentes no continente Sul Americano. 

Segundo o cientista Antônio Donato Nobre, no Brasil existe um “Paradoxo da sorte” na América do Sul, pois em todas as regiões do mundo localizadas ao sul das florestas equatoriais são desertos, como o Kalahari, aqui há uma grande variedade de biomas, entre os quais o Pantanal e a Mata Atlântica (REDAÇÃO ECOD, 2011; Figura 2) que é considerada um hostpot, ou seja, bioma de prioridade para a conservação (MYERS et al., 2000).

Contudo, por este rio voador parecer invisível, muitos não entendem a correlação entre a floresta Amazônica e o regime de chuvas de regiões distantes dela. Davi Copenaua, intérprete da FUNAI, pajé, líder indígena e presidente da Hutukara Associação Yanomami, disse: “Será que o homem branco não sabe que se ele tirar a floresta vai acabar a chuva? E se acabar a chuva ele não vai ter o que beber nem o que comer?” (REDAÇÃO ECOD, 2011). Afinal, como obteremos água e produziremos comida, eletricidade e diversos outros recursos vivendo em um deserto (Figura 2)?

vegetaçao no lugar de desertos
Figura 2. Biomas mundiais. 1: Deserto de Atacama; 2: Kalahari; 3: Complexo de desertos australianos. Adaptada de: http:\\opabrasil.org.br\Ecossistemas.html

Como observado por Davi, o desmatamento pode causar redução vertiginosa das chuvas em todo o Amazonas, pois afeta diretamente o ciclo da água na floresta. A supressão da vegetação diminui a capacidade do solo em reter água e maior parte dela escoa pelos rios e córregos. Com menor quantidade de água no solo menos água pode ser bombeada para a atmosfera pela evapotranspiração inibindo a reciclagem de água. Isso diminui a quantidade de umidade levada pela atmosfera, reduzindo a vazão do “rio voador” e a precipitação em regiões onde ele percorre. A mudança no clima da região agravaria a estação seca, causaria mortalidade de árvores e aumento do risco de incêndio, fazendo com que as áreas de cerrado avançassem sobre as áreas das atuais florestas, alterando a biodiversidade da região (BUTLER, 2013; FEARNSIDE, 2005). 

Apesar das campanhas governamentais para acabar com o desmatamento da floresta este ainda ocorre dia após dia, só em 2013 houve um aumento de 28% em relação a 2012 (INPE, 2013). As principais causas do desmatamento são: a pecuária, monocultivo de soja, e também a demanda por madeira nativa (FEARNSIDE, 2010). O estado de São Paulo e região Sul do Brasil são os maiores consumidores de madeira nativa amazônica (SMERALDI & VERISSIMO, 1999). Região que possui regime de chuvas dependente do “rio voador”, mas que não diminui seu crescimento econômico e ainda é morosa na busca por alternativas mais sustentáveis de consumo e de vida. 

Como afirmou Antônio Nobre e Davi Copenaua, o desmatamento e a mudança climática não afetariam apenas a Amazônia, o “rio voador” teria sua vazão alterada gerando conseqüências catastróficas para as pessoas que vivem a milhares de quilômetros de distância. Este quadro afetaria a agricultura, a geração de energia elétrica pelas hidrelétricas e água para consumo humano e animal, diminuiria também os serviços ambientais provenientes da Amazônia e de outros biomas dependentes do “rio voador”. Geraria racionamento de energia, problema no abastecimento de alimento, água e serviços nos centros urbanos, aumentando casos de enfermidades, entre outros problemas (BUTLER, 2013).

É preciso conter o desmatamento não apenas com campanhas governamentais, mas com a conscientização e educação de toda população humana acerca da dinâmica do próprio planeta Terra. É preciso respeitar e escutar a sabedoria de povos nativos da região e mudar o rumo da nossa sociedade. Não teremos tempo de sobreviver se precisarmos ver a América do Sul inteira se transformando em um grande deserto para tomar alguma providência. 

Referências

FEARNSIDE, P. M. 2005. Desmatamento na Amazônia brasileira: história, índices e conseqüências. Megadiversidade, 1(1), 113-123.

FEARNSIDE, P. M. 2010. Conseqüências do desmatamento da Amazônia. Scient Amer Brasil Especial Biodiversidade pp 54–59

MYERS, N., MITTERMEIER, R. A., MITTERMEIER, C. G., FONSECA, G. A. B. & KENT, J. 2000. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature. 403: 853-858.

Smeraldi, R., & Verissimo, A. 1999. Acertando o Alvo: Caracterização do Consumo Interno de Madeira da Amazônia. IMAFLORA and IMAZON.


Sites acessados




REDAÇÃO ECOD. 2010. EcoD Básico: Rios voadores. Página web Eco Desenvolvimento. Disponível em: http://www.ecodesenvolvimento.org/noticias/ecod-basico-rios-voadores

Por Mariana M. M. Sarmento, graduanda em Ciências Biológicas. ESALQ/USP, sob a orientação da Profa. Laura Alves Martirani

terça-feira, 17 de junho de 2014

Ambiente e saúde: o uso de agrotóxicos no Brasil


Fonte: panfleto campanha permanente contra os agrotóxicos e pela vida (2012)

Desde muito pequenos escutamos que para sermos saudáveis temos que comer frutas e vegetais. Mas será que isso ainda se aplica aos alimentos que consumimos atualmente?

Durante o século 20 as grandes empresas do ramo químico desenvolveram tecnologias de guerra baseadas no uso de substâncias tóxicas para o ambiente. Um exemplo é o agente laranja que foi utilizado em florestas vietnamitas como um agente desfolhante para desocultar tropas escondidas (LUCCHESI, 2005). Essa substância causou ampla destruição ambiental e provocou enfermidades irreversíveis na população, sobretudo má-formações congênitas, câncer e síndromes neurológicas em crianças, mulheres e homens do país.

Com o fim das grandes guerras mundiais as empresas químicas começaram a direcionar essa produção para eliminar pragas e aumentar a produtividade em propriedades agrícolas num mundo onde milhares de pessoas passavam fome. No entanto a negligência e falta de estudos sobre os efeitos dessas substâncias somadas a interesses comerciais para apressar a aprovação das mesmas fizeram com que compostos altamente tóxicos para o ambiente e saúde humana fossem amplamente utilizados. Em 1962 no livro “Primavera silenciosa” a autora, Rachel Carson já afirmava: “Nós permitimos que esses produtos químicos fossem utilizados com pouca ou nenhuma pesquisa prévia sobre o seu efeito no solo, na água, animais selvagens e sobre o próprio homem”

Até hoje usamos o termo "dedetizar uma casa". Essa expressão se refere ao DDT (diclorodifeniltricloroetano) um agrotóxico organoclorado com efeitos potencialmente carcinogênicos (D’AMATO, 2012) que persiste no ambiente e se bioacumula na gordura animal (inclusive do homem) por vários anos. Segundo um trabalho realizado por Danielly Palma em 2010, todas as amostras de leite materno coletadas em sua pesquisa na cidade de Lucas do Rio Verde, um importante pólo agrícola do MT, possuíam metabólitos do DDT. Essa substância foi amplamente utilizada a partir da década de 50 na agricultura e borrifada em paredes das casas em dedetização. Atualmente o DDT se encontra banido na maioria dos países.

O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo. Segundo dados da ABRASCO cerca de 20% de toda produção de agrotóxicos do mundo é utilizada pelo Brasil. Tal uso exorbitante gera problemas ambientais e de saúde do produtor até o consumidor. 

O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) da ANVISA mostra que 63% dos alimentos consumidos no Brasil contém algum resíduo de defensivo agrícola e 28% está acima do limite máximo estabelecido pelas normas brasileiras. A imagem mostra a porcentagem de amostras irregulares das culturas campeãs em problemas com agrotóxicos:

Fonte: Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos da ANVISA (2011) 

No Brasil, a cada ano, cerca de 500 mil pessoas são contaminadas, segundo o Sistema Único de Saúde (SUS) e estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). A contaminação por agrotóxicos existe na maioria de nossos alimentos, provocada por níveis de resíduos acima do permitido, pela utilização de agrotóxicos não permitidos para certos tipos de cultivo e também por conta da utilização de agrotóxicos proibidos no país. A ANVISA afirma que 14 tipos de agrotóxicos prejudiciais à saúde já banidos em outros países continuam em circulação no Brasil e que devem ser urgentemente banidos.

Portanto, embora seja recomendável o consumo de frutas e vegetais para uma boa saúde, devemos sempre estar atentos à procedência do alimento que vamos ingerir. E se possível dar preferência para alimentos isentos de agrotóxicos como os alimentos orgânicos ou agroecológicos.

Referências:

ANVISA. Programa de Análise de Resíduo de Agrotóxico em Alimentos (PARA), dados da coleta e análise de alimentos de 2010. Brasília. 2011. Disponível em www.anvisa.gov.br. Acesso em 03/05/2014.

CARNEIRO, F. F. et al. Dossiê ABRASCO – Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Parte 1 - Agrotóxicos, Segurança Alimentar e Nutricional e Saúde. Rio de Janeiro: ABRASCO, 2012

CARSON, R. L.; DARLING, L.; POLILLO, R. Primavera silenciosa. Rio de Janeiro: Melhoramentos, 1962.

D’AMATO, C.; TORRES, J. P. M.; MALM, O. DDT (diclorodifeniltricloroetano): toxicidade e contaminação ambiental - uma revisão. Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Centro de Ciências da Saúde. Rio de Janeiro. Química Nova. 2002

LUCCHESI, G.Consultoria legislativa: Agrotóxicos – Construção da legislação. Brasília. 2005. Disponível em: http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/2227/agrotoxicos_construcao_lucchese.pdf. Acesso em: 03/05/2014.

PALMA, D. C. A. et al. Agrotóxicos em leite humano de mães residentes em Lucas do 
Rio Verde – MT. 2011. Instituto de Saúde Coletiva. Universidade Federal do Mato Grosso.

Por Lucas Vinícius Domingues, sob orientação da professora Laura Alves Martirani

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O solo na agricultura orgânica


         
O solo, peça chave para a vida no planeta Terra, é um recurso natural, utilizado pelo homem de diversos modos diferentes. É também um elemento ambiental utilizado para o desenvolvimento da agricultura, inerente a natureza e de onde são extraídos os alimentos.

Assim como a água e o ar, o solo também é um recurso natural não renovável. O uso contínuo do solo e sem precedentes favorece o desgaste deste recurso. Existem técnicas que aliadas a grandes investimentos podem recuperar os danos causados ao solo. Por isso, entende-se o solo como um recurso natural potencialmente renovável.

A agricultura em geral tem como base o solo para seu desenvolvimento. No entanto, segundo princípios agroecológicos, a agricultura orgânica presa pela manutenção de um solo adequado às suas práticas.

Agricultura orgânica é o sistema de produção de alimentos que não usa fertilizantes sintéticos, agrotóxicos, nem reguladores de crescimento ou aditivos para a produção de alimentos de origem animal. O manejo na agricultura orgânica valoriza o uso eficiente dos recursos naturais não renováveis, bem como o aproveitamento dos recursos naturais renováveis e dos processos biológicos alinhados à biodiversidade, ao meio-ambiente, ao desenvolvimento econômico e à qualidade de vida humana (SEBRAE, 2013).

Para ser considerado orgânico, o alimento tem que ser produzido em um ambiente de produção orgânica. Neste ambiente se utiliza como base do processo produtivo os princípios agroecológicos que contemplam o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, sempre respeitando as relações sociais e culturais (MAPA, 2013). Deste modo, a prática orgânica utiliza o solo de maneira adequada, mantendo a integridade dos recursos naturais. E entende o solo como organismo vivo, sendo necessária total atenção para seu manejo.

O solo é um componente do ambiente e a sua degradação pode ser considerada um tipo de degradação ambiental. A degradação do solo na agricultura convencional possui duas causas diferentes, seja por produtos ou por técnicas utilizadas no campo. O uso do solo pela agricultura orgânica tem como base o fornecimento de matéria orgânica na forma de adubos verdes e cobertura morta, caracterizando a aplicação de compostos orgânicos.

A adubação verde é um procedimento recomendado na agroecologia e bastante utilizado na prática agrícola em geral, e consiste em incorporar ao solo matéria orgânica proveniente de um cultivo com a finalidade de melhorar as condições nutricionais do solo; ao mesmo tempo em que se evita a erosão e a degradação de suas propriedades (GRISI, 2007).

Com a cobertura morta, a superfície do solo é coberta, principalmente nas entrelinhas com uma camada de material orgânico constituído por restos culturais. Essa alternativa exerce o controle de daninhas, pois a cobertura, diminui a absorção de luz, inativando a fotossíntese e, portanto, diminuindo a competição. Como benefícios para o solo, a cobertura morta evita a erosão e o escoamento superficial da água, mantendo no solo os nutrientes necessários para o desenvolvimento das plantas.

Caso não sejam realizadas práticas que conservem o solo torna-se imprescindível o planejamento rural, na recuperação de solos degradados. Deve-se racionalizar o uso da terra de acordo com as características naturais, sempre almejando o manejo adequado, a conservação do solo e os benefícios econômicos que a produção pode promover. A recuperação do solo e o não desmatamento de novas áreas para plantio, aliado ao reflorestamento e a policultura são soluções abrangentes e que demonstram resultados benéficos ao ambiente.

Com relação ao solo, a agricultura orgânica tem como objetivo o aumento da fertilidade, de duas principais maneiras: estimular os componentes vivos e favorer os processos biológicos. Na relação Homem-Natureza, o uso do solo na agricultura orgânica ou tradicional deve em primeiro lugar respeitar os limites do solo, que como recurso natural não renovável pode provocar danos irreversíveis ao ecossistema.

A valorização, conservação e preservação do solo é de extrema importância para a manutenção da qualidade do ambiente e extensão por muitos anos das atividades exercidas com este recurso.



Bibliografia

EMBRAPA. Sistema de Produção de Uvas Rústicas para processamento em regiões tropicais do Brasil.  
 Acesso em 22 abr. 2013

GRISI, B. M. Glossário de ecologia e ciências ambientais. 3ª edição. João Pessoa, 2007 p.19

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO  O que são alimentos orgânicos. Acesso em 22 abr. 2013

SEBRAE. Sistema Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. O que é agricultura orgânica: Conheça o sistema de produção que tem por objetivo preservar a saúde do meio ambiente, a biodiversidade, os ciclos e as atividades biológicas do solo.  Acesso em 22 abr. 2013.

Por Aline Alessi, sob orientação de Prof. Laura Alves Martirani

Reflexões sobre reciclagem

Ilustração Carlos D. G. Silva

Cada brasileiro gera em média 1,1 Kg de resíduos por dia, resultando em 183 mil toneladas diárias em todo país (IBGE, 2010). Diante desses valores, a reciclagem é uma excelente maneira de amenizar os danos provocados por essa enorme geração de resíduos, pois transforma materiais descartados em matéria-prima para produzir novos materiais. Mas, para que esse processo de transformação ocorra é necessário driblar diversos empecilhos que afetam a reciclagem.

Mesmo que um material possua potencial, sua reciclagem depende muito do contexto local, isto é, a realidade social, ambiental e econômica de uma localidade. Por exemplo, o isopor possui potencial de reciclagem, mas por ser leve, volumoso e haver poucas industrias recicladoras desse material a sua reciclagem é inviável na maioria das regiões.

Outro caso ocorre com as fraldas descartáveis que são recicladas em outros países, mas no Brasil ainda não há essa tecnologia, portanto, em nosso contexto, as fraldas são encaminhadas para os lixões e aterros sanitários.

O custo com transporte também inviabiliza a reciclagem de certos materiais, pois pode haver grandes distâncias entre o beneficiador e a indústria recicladora. Por exemplo, o plástico beneficiado no Rio de Janeiro é vendido para São Paulo para ser transformado em pellets (grãos) e depois vendido para o Sul para a indústria recicladora (GONÇALVES, 2003). 



Já no processo de transformação dos recicláveis, certos materiais não são reciclados infinitas vezes e em alguns casos a matéria-prima reciclada não voltará ao seu estado anterior. Desse modo, dentre os principais materiais que são reciclados pode haver diferenças no quanto cada material será aproveitado e no que irão se tornar após o processo.

A reciclagem do plástico pode ocorrer muitas vezes ou uma única vez, por conta dos vários tipos de plásticos existentes. Por exemplo, o plástico PET pode ser reciclado várias vezes sem perder suas principais características. Já o plástico PEAD, não pode ser transformado várias vezes, pelo fato de perder suas qualidades durante o processo de reciclagem (ECOD, 2012). O plástico reciclado é utilizado na fabricação de baldes, cabides, madeira plástica, cerdas, sacolas, garrafas que não terão contato direto com alimentos e fármacos, entre outros produtos.

Uma tonelada de papel reciclado evita o corte de 15 a 20 árvores, mas a reciclagem do papel só ocorre de cinco a sete vezes, pelo fato de suas fibras sofrerem degradação durante os processos (ECOD, 2012). Papéis plastificados, parafinados, metalizados, laminados e carbono não são facilmente reciclados e o papel reciclado pode ser utilizado na fabricação de caixas, sacolas, papel higiênico, cadernos, livros, entre vários outros produtos. 

Já os metais são divididos em ferrosos e não ferrosos e podem ser reciclados infinitas vezes e na maioria dos casos voltam a ser o material que eram anteriormente (ECOD, 2012). Mas, embalagens metálicas de aerossóis, tintas, inseticidas e pesticidas não são recicladas.

Uma tonelada de vidro reciclado evita a extração de 1,3 toneladas de areia e na maioria das vezes a reciclagem do vidro pode ocorrer infinitas vezes havendo perda zero, pois um quilo de vidro reciclado produz outro um quilo de vidro (ECOD, 2012). Mas, os vidros técnicos, como as lâmpadas, vidros de laboratórios, garrafas térmicas e isoladores elétricos, por possuírem uma constituição diferente não são facilmente reciclados.

Diante dessas e de outras circunstâncias, a reciclagem por si só não consegue resolver todo o problema de volume de resíduos gerados por nosso sistema de produção e consumo de forma eficiente. A redução do desperdício e do consumo e a reutilização de certos materiais são ações que auxiliam e aliviam o peso sobre o processo da reciclagem e os impactos no meio ambiente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ECOD. Saiba quantas vezes os materiais mais comuns podem ser reciclados. Acesso em: 01 mai. 2013


GONÇALVES, P. A Reciclagem Integradora dos Aspectos Ambientais, Sociais e Econômicos. Rio de Janeiro: DP&A: Fase, 2003. 184 p.

IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008. Rio de Janeiro: IBGE, 2010. 219 p. 

SUDAN, D. C. (Coord.). Da pá virada: Revirando o tema lixo. Vivências em Educação ambiental e resíduos sólidos. São Paulo: Programa USP Recicla/ Agência USP de Inovação, 2007. 245p.

Por Nathália Bernardes Ribeiro, sob orientação de Profa. Laura Alves Martirani

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Combustíveis fósseis e águas subterrâneas: risco de contaminação


Ilustração: Livia Serri Francoio

A contaminação dos aquíferos subterrâneos por derivados de petróleo é um problema que ganha, na contemporaneidade, crescente preocupação, já constatada em países desenvolvidos, como  Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos (OLIVEIRA & LOUREIRO, (1998).  No Brasil, apesar da atenção recebida por órgãos federais, como a Agência Nacional das Águas (ANA) e estaduais, como a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), o tema ainda é incipiente.

 Dados de entidades que monitoram a qualidade da água fornecem parâmetros da gravidade do problema. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental Norte – Americana (EPA) ,  existem cerca de dois milhões de tanques subterrâneos de armazenamento de gasolina nos Estados Unidos; destes, 30%, ou seja, seiscentos mil  já vazaram ou estão em processo de vazamento (CORSEUIL, 1997). Em São Paulo, de acordo com a CETESB, os postos de gasolina respondem por 63% das áreas de águas subterrâneas contaminadas (TEIXEIRA, 2008). No Brasil existem aproximadamente trinta e cinco mil postos de gasolina, a maioria construída na década de 70. Como esses postos possuem uma vida útil em torno de 25 anos, configura-se um cenário que evidencia a necessidade de  constante vigilância de órgãos  responsáveis.

Em caso de vazamento de gasolina, o contato com a água subterrânea permite a dissolução parcial do combustível. Conseqüentemente, os hidrocarbonetos monoaromáticos benzeno, tolueno, etilbenzeno e os três xilenos orto, meta, para (BTEX), componentes da gasolina com maior miscibilidade em água, contaminarão os lençóis freáticos (CORSEUIL, 1992). Leucemia, danos nocivos ao sistema nervoso e morte da fauna e da flora: eis uma fotografia obscura que o contato com esses componentes pode proporcionar.

Em virtude dos danos nocivos ao ambiente e aos seres vivos que a presença de hidrocarbonetos acarreta, procuram-se medidas que possam atenuar os prejuízos desses compostos em lençóis subterrâneos. Citam-se como recursos os processos de extração de vapores do solo, que  promovem a retirada dos contaminantes voláteis, utilizando-se o vácuo. Pode-se recorrer, também, ao Air Sparging, técnica que utiliza a injeção controlada de ar para a remoção de compostos orgânicos voláteis dissolvidos na água, visto que força a mudança do estado líquido para o gasoso do composto que se deseja extrair. Esses mecanismos, no entanto, exigem longos períodos de tempo e altos custos para a remediação das áreas contaminadas (CORSEUIL & WEBER, 1994). Ressalta-se ainda que nem sempre esse tipos de  iniciativas são capazes de reverter todo um quadro de contaminação.

Outra alternativa, economicamente mais viável, baseia-se na biorremediação  processo que emprega microrganismos e suas enzimas para a degradação de compostos tóxicos. A técnica, todavia, é limitada por apresentar dependência das condições de temperatura  e da presença de nutrientes no local, para que os microrganismos proliferem.

A contaminação da água subterrânea é um grave problema porque afeta um recurso indispensável à existência humana. Ressalta-se ainda que a sociedade moderna não conseguirá se livrar tão cedo desse risco, pois ainda depende desses combustíveis para movimentar grande parte de sua frota dos veículos.

Por fim, resta-nos saber se os sistemas de tratamento de água, especialmente nas cidades que são abastecidas por água subterrânea são capazes de eliminar essas substâncias e restaurar a integridade do composto mais vital ao ser humano, de modo a garantir segurança à saúde da população.

Bibliografia:

CORSEUIL, X.H.; MARINS, D.M. Contaminação de águas subterrâneas por derramamento de gasolina: o problema é grave? Revista Engenharia Sanitária e Ambiental, v.2, n.2, p.50-54, 1997.

OLIVEIRA, I.L.; LOUREIRO, O.C. Contaminação por combustíveis orgânicos em Belo Horizonte: avaliação preliminar. Revista Águas Subterrâneas, São Paulo, 1998.

SUGIMOTO, L. Sensores detectam e monitoram contaminação de águas subterrâneas. Jornal da UnicampCampinas, 22-28 nov. 2004.


Por Felipe Morais Del Lama e Laura Alves Martirani